Instituto Iris

O projeto que dá voz à Geração Z

O Projeto Ori está impactando a vida de centenas de jovens por toda a Bahia

Nos acostumamos a ver publicações e pesquisas — a maioria feitas por grupos e instituições de outros países — que retratam os membros da Geração Z (pessoas nascidas entre 1997 e 2012) como mimados, incapazes de lidar com o mercado de trabalho tradicional ou com situações desconfortáveis, colocando quase 2,5 bilhões de pessoas em uma só caixa.

O final da década de 1990 e o início dos anos 2000 foram marcados por acontecimentos globais que mudaram a face do mundo — entre eles, o desenvolvimento das tecnologias digitais, a pandemia de Covid-19 e a assinatura do Protocolo de Kyoto (acordo internacional firmado em 1997 para reduzir emissões de gases do efeito estufa, que ainda é um dos marcos mais importantes nas discussões sobre questões ambientais).

Todos esses eventos influenciaram uma geração e, portanto, influenciaram a forma como essas pessoas existem no mundo, mas não de forma suficiente para uniformizá-las. 

Assim como em outras comunidades, a diversidade dentro da Geração Z, também identificada como Gen Z, iGen ou pós-millennials, é enorme, cheia de contrastes, vivências e hábitos distintos. 

O mercado de trabalho

A Gen Z começou a integrar o mercado de trabalho por volta de 2017.Segundo o Fórum Econômico Mundial, até 2030 a Geração Z deve compor 58% da força de trabalho global. 

Pela primeira vez, cinco gerações com vivências distintas — especialmente no que diz respeito à tecnologia e à formação — compartilham o mesmo ambiente de trabalho. A distância etária entre os profissionais nunca foi tão ampla, e as diferenças nas trajetórias de vida e referências entre essas gerações nunca foram tão marcantes.

Carregando consigo valores como senso de comunidade, visão global, preferência por acesso em vez de posse, múltiplas fontes de renda e autenticidade acima da formalidade, a Gen Z tem potencial para transformar a cultura corporativa e promover uma nova dinâmica entre diferentes faixas etárias no ambiente profissional.

Jovens do mundo todo demonstram insatisfação com modelos tradicionais de trabalho, valorizam a autenticidade e estão mais engajados politicamente, especialmente em temas como clima, diversidade e justiça social.

Uma pesquisa conduzida pela plataforma Intelligent.com revelou que 60% dos empregadores já dispensaram profissionais da geração Z recém-saídos da universidade. As razões mais citadas para essas demissões foram a ausência de proatividade (50%), dificuldades na comunicação (39%) e comportamento considerado pouco profissional (46%).

Propomos aqui um olhar diferente para esses números. Antes de julgar uma geração inteira, sugerimos que as diferenças entre gerações pode ser um dos fatores desse desempenho, mais do que uma suposta falta de competência dos jovens. A falta de preparo para lidar com essas diferenças pode gerar conflitos na relação entre empregadores e funcionários, resultando em demissões e na perda de novos talentos.

A Geração Z no Brasil

As experiências dos jovens são fortemente influenciadas pelo ambiente cultural e social em que vivem, o que torna fundamental reconhecer a diversidade de trajetórias e os diferentes arranjos sociais que moldam sua realidade. 

Enquanto uma parcela mínima da população mundial desfruta de educação de excelência, saúde e segurança, outra parte encara a violência policial, o racismo estrutural, a LGBTfobia e exclusão digital. Para muitos jovens das periferias, negros, indígenas e pessoas trans, o futuro ainda é construído na base da luta e da resistência.

A identidade da Geração Z no Brasil, portanto, não é homogênea, ela é fragmentada pelas estruturas de poder que atravessam o nosso país. Essas condições comprometem o desenvolvimento de competências essenciais para acessar melhores oportunidades profissionais, dificultando a mobilidade social e reforçando um ciclo contínuo de exclusão.

Entre os 50 milhões de jovens brasileiros de 15 a 29 anos, 10,9 milhões não estudavam nem estavam ocupados em 2022, revelando um contexto desafiador para os próprios jovens e para as políticas públicas voltadas para esse grupo.

A organização Ação Educativa, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2023, apontou que, naquele ano, jovens mulheres negras entre 18 e 29 anos enfrentaram uma taxa de desemprego três vezes superior à dos homens brancos no Brasil.

Mesmo quando inseridas no mercado de trabalho, essas jovens recebiam, em média, 47% a menos do que a média nacional, e quase três vezes menos do que os homens brancos. O levantamento também revelou que mulheres negras de 14 a 29 anos dedicavam quase o dobro do tempo aos trabalhos domésticos em comparação aos homens, sejam eles negros ou brancos.

Como podemos incentivar essa juventude sem estereotipar ou limitar suas capacidades?

Falar sobre a juventude no Brasil, portanto, é falar sobre uma maioria periférica que é diversa e resistente. Por isso, políticas para redução de disparidades podem aumentar a contratação de negros e reduzir as desigualdades raciais em termos de empregabilidade.

Segundo resoluções do Atlas da Juventude (2021), incluir jovens de 15 a 24 anos na educação ou no mercado de trabalho, pode evitar prejuízos de até 1,5% do PIB dos países.

Os jovens de hoje são a população em idade ativa das próximas décadas. Ao investir nesse grupo populacional, temos a oportunidade de colher um bônus demográfico, o que ajuda a reduzir a pobreza e elevar os padrões de vida.

Com a intenção de contribuir com esses objetivos o Ori, projeto territorial de autoria do IRIS, teve a sua primeira edição em 2017. 

Inspirado na palavra iorubá “ori”, que remete à essência, ao destino e ao poder de conduzir a própria vida, o projeto acredita que cada indivíduo tem um potencial transformador. Por isso, oferece capacitação gratuita para jovens negros, com idade entre 16 e 29 anos, de diversas cidades da Bahia. 

A proposta consiste em um programa de formação intensivo, com 140 horas de carga horária total, distribuídas entre módulos técnicos e sociais. O conteúdo combina teoria, prática e mentoria especializada, preparando os participantes para atuar de forma estratégica no mercado. Sem se limitar a conteúdos unicamente técnicos, mas também aprofundando temas como políticas públicas, equidade racial e a história do continente africano.

De 2017 para cá, já foram 6 edições e mais de 700 jovens-adultos negros qualificados em 8 cidades baianas, aptos a modificar a sua realidade e a lógica vigente atribuída à essa população.

O projeto não fala sobre a juventude, ele fala com ela. Sem rótulos, sem moldes. Em vez de encaixar a Geração Z em estereótipos reconhece sua potência real: múltipla, crítica, conectada e profundamente criativa.

plugins premium WordPress